Capivaras “urbanas”: um caso de saúde única

Autor: Claudemir Santos da Costa, Técnico de Laboratório (Área Biologia) da Seção de Saúde Bucal - DQV, Licenciado em Ciências Biológicas - UFRPE, Mestre em Biotecnologia – UFPE.

As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), mamíferos da Família Hydrochoeridae, são os maiores roedores do mundo. Com ampla distribuição no continente Sul americano, estão presentes em todos os países, com exceção do Chile. De hábito essencialmente herbívoro, habitam sempre próximo às fontes de água doce como rios, lagos, lagoas e pântanos. No Brasil, as capivaras podem ser encontradas em todos os 26 Estados, e no Distrito Federal [1].

Sua aparência causou surpresa ao colonizador europeu que logo adotou o animal como um dos ícones do “paraíso recém-descoberto”, fazendo registro de sua existência nos mapas e cartas náuticas, nos relatos de viagens e de costumes do Novo Mundo. Na Capitania de Pernambuco sua abundância era tanta que inspirou a origem do nome do Rio Capibaribe (em tupi, Caapivar-y-be ou Capibara-ybe) que significa Rio das Capivaras [2].

As capivaras têm dentes incisivos compridos, glândulas sudoríparas, pelos de coloração variando entre o preto e o cinza, mas com predominância de indivíduos com pelagem castanho escuro, suas patas são curtas em relação ao volume do corpo, apresentam dedos com unhas fortes e membranas natatórias. Vivem em bando, costumam excretar na água e demarcam seu território com urina ou com secreção de forte odor produzida por glândula existente na cabeça [3, 4].

Com a expansão das áreas urbanas, que crescem desordenadamente provocando a destruição do seu habitat natural, as capivaras têm se refugiado nas cidades e os avistamentos são frequentes em diversas regiões metropolitanas do País. No Recife são comuns no entorno do Parque de Dois Irmãos, nas imediações da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e na Avenida Beira Rio. Suas ocorrências nas cidades têm sido relacionadas a transtornos como acidentes automobilísticos, destruição de jardins, ataques aos cães e transmissão de zoonoses, sendo atualmente classificada como população problema [1].

Capivaras podem ser reservatórios de patógenos de alta letalidade, causadores de infecções de notificação compulsória como, a temida Raiva, a Leptospirose e a Febre Maculosa. O “Manual de Vigilância, Prevenção e Controle de Zoonoses” do Ministério da Saúde, apenas faz uma pequena menção relacionando capivaras à Febre Maculosa, mesmo as pesquisas apontando as capivaras como portadoras de variedades importantes de Leptospira spp [3]. Também não são mencionadas no “Manual de Controle de Roedores” elaborado pelo mesmo Ministério.

Os apreciadores de sua carne comparam seu sabor ao da carne de porco. Visando esse mercado, várias pesquisas têm sido realizadas objetivando o desenvolvimento de técnicas de criação e manejo. A exploração da pele também vem sendo estudada [4], mas a caça, o abate e o consumo do animal de vida silvestre não são recomendados, pois além de ser ilegal, oferece risco à saúde por não receberem nenhum tipo de acompanhamento sanitário.

Apesar de possuírem um comportamento dócil, as capivaras podem atacar quando submetidas a situações de estresse, nas épocas de acasalamento ou na defesa das suas crias. O “Manual de Contenção de Animais”, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), recomenda evitar o contato e indica que caso o animal esteja oferecendo riscos, esteja machucado ou em ambiente fechado é importante solicitar a presença da Polícia Militar Ambiental para fazer a contenção e o transporte para local seguro [5], no Estado de Pernambuco o CIPOMA (Companhia Independente de Policiamento do Meio Ambiente) pode realizar essa tarefa.

Em áreas de ocorrência, é muito importante evitar atividades recreativas nas águas habitadas por esses animais, bem como evitar o contato com as águas de enxurrada e o consumo de água sem tratamento prévio. Também é importante não manipular suas carcaças e não consumir carne sem certificação de origem.

Numa abordagem “One Health”, ou de “Saúde Única”, onde questões de saúde humana e animal, de epidemiologia, de meio ambiente, e de educação, são analisadas de forma holística, os diferentes Ministérios deveriam rever seus protocolos e elaborar políticas públicas de promoção à saúde, educação, meio ambiente e agricultura, mais integradas, para contribuir na melhoria da qualidade de vida.

Referências

1. Adalberto de Albuquerque Pajuaba Neto [et al.] - Conhecimentos, atitudes e práticas sobre capivaras em áreas antropizadas indenes para febre maculosa: percepção da sociedade. Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde. HYGEIA 15 (34): 35-52, Dez/2019.

2. José Luis Said Cometi - A invasão das capivaras. Recife: CPRH, 2021.

3. Ana Claudia da Silva Santiago - Infecção por Leptospira spp. em capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris Linnaeus, 1766) de vida livre em Pernambuco. Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas - UFRPE) 2019.

4. Elias Silva - A capivara: uma ampla revisão sobre este animal tão importante. Universidade Federal de Viçosa – UFV, Centro de Ciências Agrárias – CCA, Departamento de Engenharia Florestal – DEF. Viçosa-MG, 2013.

5. Allisson Jhonatan Gomes Castro [et al.] - Animais na UFSC: o que fazer quando encontrar um animal no campus?/ Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadoria de Gestão Ambiental. Florianópolis-SC, 2019.